13 de nov. de 2015

ENTREVISTA

José Amaral
“Se um país tem problemas políticos, culturais, econômicos, as pessoas migram”


Foto: Reprodução


Nos últimos meses o mundo vem assistindo atônito e preocupado o drama e o desespero que o povo sírio tem enfrentado ao tentar chegar à Europa. 

A imagem do corpo do garoto Alan Kurdi sendo resgatado no mar da Turquia, após morrer juntamente com seu irmão e a mãe ao tentarem atravessar a fronteira, chocou a todos, rompeu o silêncio em torno do problema e escancarou a falta de respeito, o despreparo e a desumanidade dos países ricos, mais preocupados em manter guerras em benefício da indústria bélica, do que em encontrar uma saída definitiva para a questão migratória. 

A onda de migração mundial se intensificou, e já atinge o Brasil.

O economista e professor José de Almeida Amaral Júnior tem acompanhado atentamente o assunto e debatido o tema de forma aberta e recorrente em suas concorridas aulas. 

Apaixonado pelo que faz, dedica boa parte de seu tempo a formar alunos da Uninove – Universidade Nove de Julho - e a pesquisar o Chorinho, gênero musical que ajudou a rememorar em São Paulo.  

Simpático, exigente, trabalhador assíduo e incansável, o “Professor Amaral”, como é chamado por seus alunos, é quase uma unanimidade entre eles, mesmo sendo um crítico exigente e rigoroso nas aulas dos diversos cursos da universidade em que leciona Economia e Geopolítica. 


Mestre em Educação Política, graduado em Economia pela PUC/SP e em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, também é autor dos livros Chorando na Garoa – Memórias musicais de São Paulo e Pari - Pequeno Bairro, Grande História. Pesquisador entusiasta por natureza, ele nos concedeu essa entrevista sobre a nova onda de imigração mundial e os seus reflexos no Brasil.

P: Quais são os reais motivos que estão por trás dessa nova onda de migração?
José Amaral: A intensificação das migrações se dá por questões políticas, econômicas, culturais e climáticas. A questão da migração é um problema sério que já vem ocorrendo há muito tempo, não é uma novidade. Em primeiro lugar é importante ressaltar que migração é um fenômeno humano.  Nos últimos tempos, tendo em vista os processos da globalização, acelerou suas características. No final dos anos 80 com o fim da Guerra Fria onde se tinha dois blocos com certa homogeneidade política, econômica e de relações internacionais, essa onda apenas se intensificou depois que o capitalismo neoliberal, enquanto modo de produção, venceu a luta interna entre os dois blocos e se aproveitou do fenômeno chamado Internet. Isso tudo, juntamente com o aprofundamento das crises do petróleo, fez com que as empresas se reorganizassem produtivamente e estimulassem a inovação de produtos tecnológicos, de informática e de software, permitindo que as multinacionais se mobilizassem no mundo e derrubassem os limites do Estado Nacional. As empresas então começaram a eliminar postos de trabalho e criaram outras fronteiras de produção que estimularam a intensificação das migrações.

P: De que forma se deu a reorganização produtiva e, consequentemente, das migrações?
José Amaral: Vamos pegar, por exemplo, um produto da Nike. Se fazer cadarço é mais barato na Argentina, você faz o cadarço na Argentina. Pega o couro na Mauritânia, a cola e o solado na Hungria, junta tudo e o produto final sai na Tailândia ou na Indonésia. Então você tem uma produção que se “mundializa” para se tornar concreta e descoloca as pessoas atrás do emprego. O trabalho corre atrás das vagas e as empresas começam a levar postos de trabalho para regiões que não tinham essas características. Como resultado de tudo isso, as migrações aumentam.

“A indústria bélica precisa sobreviver e a maneira mais rentável são as guerras”

P: A reordenação do trabalho e nova forma de produção foram os únicos motivos para o aumento da migração?
José Amaral: O outro ponto são as velhas questões culturais regionalizadas. Tribo que ataca tribo, gerando revanche e estados de guerra em que as lutas são sucessivas e em que as pessoas vão revidar na primeira oportunidade, e em que a indústria bélica não tem escrúpulos. A indústria bélica precisa sobreviver e a maneira mais rentável são as guerras. A população pode não comer, mas tem bala para atirar. Crianças andam com metralhadoras. Elas não têm educação, mas metralhadora não falta. Cria-se um clima de insegurança e instabilidade política que leva imediatamente a uma instabilidade econômica e essa leva as pessoas a morrerem de fome ao longo prazo e, automaticamente, as pessoas começam a andar, a se mobilizar e fugir dos campos de guerra. Se um país tem problemas políticos, culturais, econômicos, as pessoas migram.

P: E isso vai passando de geração em geração?
José Amaral: Essas guerras são todas antigas. A guerra civil é uma coisa trágica porque um vizinho fica marcando o outro vizinho. Você é azul e porque o teu vizinho que é vermelho te olha de um jeito que você não gostou você vai lá e mata ele. Foi o que aconteceu com Kosovo, na Europa Central e envolveu a Sérvia e Rússia, região da ex- Iugoslávia, mas isso já acontecia desde a Primeira Guerra Mundial. A Síria é um país que tremeu com a Primavera Árabe. Como o governo, ao contrário da Líbia, da Tunísia e do Egito, não caiu, criou-se oposição intensa a ele. Essa oposição se tornou armada e o governo responde com fogo. A Síria, um país que era extremamente organizado, está entrado em um processo de deterioração total, em uma guerra civil em que não se tem segurança nenhuma. Pais ficam ensinando aos filhos e aos netos que aquele grupo oprimiu eles no passado e, na primeira oportunidade, eles acham que têm de descontar. Isso não acaba, não tem fim. Como a região é conflituosa e não se vislumbra uma solução, as pessoa vão embora, fogem, migram.

“A guerra civil é uma coisa trágica porque um vizinho fica marcando o outro vizinho. Você é azul e porque o teu vizinho que é vermelho te olha de um jeito que você não gostou você vai lá e mata ele”

P: A tendência é as pessoas migrarem para onde?
José Amaral: A tendência é as pessoas irem para a Europa, como se a Europa fosse a saída do mundo. Vão para a Alemanha porque a Angela Merkel é aquela que tá dando tapa na orelha dos gregos, então a Alemanha deve ter muita grana, daí todo mundo vai para a Alemanha. Só que uns países são mais colaboradores, outros nem tanto. Como são milhares de pessoas, os países começam a questionar e a cobrar uns aos outros. Exigir que os outros também colaborem porque senão metade da Síria vai ficar em um só país. Sem falar que também tem a questão da xenofobia. O europeu tem mesmo um problema de desavença cultural e racial e começa a criar uma questão racial séria. Como o nazismo e a extrema direita ainda existem por lá, os nazistas e direitistas radicais não podem ver o sujeito que veio da África ou do Oriente porque acham que esses povos são mesmo inferiores, roubam empregos, etc.

P: E quais são as condições que esses imigrantes encontram nesses países?
José Amaral: Péssimas, porque eles vão fazer os trabalhos mais pesados. O europeu não vai botar a mão no trabalho mais pesado. As antigas colônias migram para as antigas metrópoles para buscar emprego e o emprego que vão ter não é de professor, mas de lavador de pratos, de varredor de chão, de limpador de banheiros.

P: No Brasil também é assim?
José Amaral: Quando você tem uma economia que cresce muito você pode absorver mão de obra, como aqui no Brasil que pôde absorver o haitiano e o boliviano quando a economia crescia e tinha mais emprego. Quando se tem um pleno emprego pode-se absorver essas pessoas? Lógico que pode. A economia brasileira é a sétima do mundo, talvez caia para a nona, mas absorve todo mundo e mais um pouco desse povo que tem chegado aqui. A questão é o preconceito. Algumas pessoas reclamam porque eles são haitianos. Porque o cara é negro. Se fosse alemão, italiano, francês ou português ou se achassem eles bonitinhos ou se fossem do olho claro, não tinha erro. Se o cara é negro, haitiano ou angolano, reclama-se.

P: Então o temor do brasileiro em relação aos imigrantes não é por um possível  desequilíbrio do mercado nem pelo medo do desemprego?
José Amaral: É preconceito mesmo. O desequilíbrio de mercado é muito baixo. Os bolivianos aqui no Brasil praticamente fazem trabalho semiescravo.  O camarada vem pra cá para trabalhar na indústria têxtil e se submete a uma coisa horrorosa na região do Brás, Lapa e Pari. É uma exploração filha da mãe. Quem está fazendo esse trabalho semiescravo? O brasileiro? Que nada! Quem está fazendo isso é o boliviano, e ainda falam que o cara tá roubando vaga, apesar da delegacia do trabalho cair em cima e ter inúmeros processos contra isso.

“Esses últimos 15 anos foram muito importantes para o país porque se regatou, ou melhor, criou-se uma situação nova. Você só resgata alguém quando ele já teve algo antes, essas pessoas das camadas mais populares nunca tiveram nada”

P: Então o que é que justifica a preocupação do brasileiro em relação aos imigrantes?
José Amaral: É uma questão de revisão geopolítica. O Brasil hoje é uma potência econômica. Por isso temos que tomar a iniciativa de resolver essa parada da crise econômica. Porque o país tá perdendo tempo com coisas que vão levar a uma desgraceira da população das camadas mais populares. O Brasil, segundo dados do Banco Mundial, da ONU, da FAO, da OIT, que não são dados do governo federal nem de partidos ligados ao governo, é um exemplo em política pública. Esses últimos 15 anos foram muito importantes para o país porque se regatou, ou melhor, se criou uma situação nova. Você só resgata alguém quando ele já teve algo antes, essas pessoas das camadas mais populares nunca tiveram nada. O problema é que se essa crise econômica se aprofundar ela vai colocar todos eles em risco porque os programas sociais são assistencialistas. E são assistencialistas porque o cara tem que comer e tem que ter os tais dois dólares por dia, se não tá ferrado até conseguir sair da dependência do assistencialismo e criar uma situação que o torne independente.

P: Se a crise econômica brasileira não for resolvida o que pode acontecer?
José Amaral: Ou se faz a economia andar para as pessoas terminarem um curso, arrumarem um emprego decente ou se estabilizar em um emprego para que as coisas mudem para todos ou essas pessoas vão se ferrar porque ainda não conseguiram se estruturar enquanto família. Se a economia começa a andar para trás, aí você não vai ter emprego para boliviano, haitiano, mas também não vai ter emprego para nós. A taxa de desemprego já está começando a crescer e se a situação ficar mais complicada, evidentemente que as migrações vão ser refeitas. Invés de vir para o Brasil, o cara vai pro Chile. É assim. Hoje o Brasil é um polo de atração porque ainda é a sétima economia do mundo. Mas se a conjuntura for desfavorável ao longo dos anos e o país começar a perder posição, a onda migratória muda de país. No caso da imigração atual na Europa, o cara vai para Alemanha porque ela está bem economicamente. Se bem que ele não vai pro Japão porque é distante geográfica e culturalmente. A Europa é mais próxima, colonizou essas caras e a situação econômica no momento está mais estável do que suas nações. Se a economia está funcionando, até no deserto os Tuaregs vivem.

P: Até que ponto a intensificação da onda de imigração pode interferir na geopolítica mundial?
José Amaral: Já está interferindo. Um exemplo são os alertas da Angela Merkel chamando a atenção da Turquia, da Hungria e dos outros parceiros da União Europeia para colaborarem e acolherem os imigrantes sírios. A imigração da África para a Europa já é uma tensão geopolítica entre esses povos e entre os próprios povos europeus, chamando um a atenção do outro.

P: E no caso da geopolítica da América Latina?
José Amaral: Para nós da América Latina há o exemplo da experiência brasileira em relação à Bolívia, mas não estamos criando tensões. No caso do Brasil, como a economia estava caminhando, eu vejo mais a questão sob o ponto de vista da colaboração geopolítica e geoeconômica. Embora a forma como os haitianos estão entrando pelo norte do país seja desorganizada, horrorosa e desumana. Prometeram dar sustentação para eles, mas eles chegam no norte, e como não têm onde ficar, mandam os caras para São Paulo. É o mesmo raciocínio da Alemanha. Por que São Paulo? Porque é o estado mais rico. No nosso caso, o tensionamento geopolítico tem se dado porque como até então tínhamos pleno emprego. Como a crise econômica se intensificou, alguns malucos veem o haitiano ralando e acham que ele tá tirando o emprego dos brasileiros porque a economia começa a andar para trás e faz com que comesse a haver esse tensionamento. Vejo que em relação ao Brasil não há problemas geopolíticos com relação à imigração, mas problemas policiais, de crime, como no Pari e região do Brás, pelo fato desses imigrantes estarem sendo usados como mão de obra escrava, o que não é um problema de relações diplomáticas e sim de questões trabalhistas. De mão de obra ilegal, não de conflito.

“Se a economia está funcionando, até no deserto os Tuaregs vivem”

P: Diferentemente do que acontece na Europa?
José Amaral: Sim, porque lá na Europa há uma massa imensa de pessoas que estão desesperadas porque os conflitos em seus países de origem não têm fim. Por causa dos grupos radicais antigos e os que surgiram recentemente, como o Estado Islâmico. Mas tudo culpa do Ocidente que colonizou a África de uma forma estupidamente violenta. Arrasaram com africanos e não deram nenhuma contrapartida a eles. Agora os africanos estão se voltando para a Europa porque ela levou uma parte considerável da riqueza que esses povos tinham.

P: Qual a solução?
José Amaral: Por enquanto não tem solução. Porque o mundo está em crise. A crise econômica no mundo é uma crise séria. Não tem uma perspectiva de melhora relativamente rápida. Um país ou outro ainda consegue se safar, mas de modo geral a economia mundial está devagar, no sentido de poder absorver de uma forma fácil a mão de obra que venha de outro lugar.

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