Nos últimos meses o mundo vem assistindo atônito e preocupado o
drama e o desespero que o povo sírio tem enfrentado ao tentar chegar à Europa.
A imagem do corpo do garoto Alan Kurdi sendo resgatado no mar da Turquia, após
morrer juntamente com seu irmão e a mãe ao tentarem atravessar a
fronteira, chocou a todos, rompeu o silêncio em torno do problema e escancarou
a falta de respeito, o despreparo e a desumanidade dos países ricos, mais
preocupados em manter guerras em benefício da indústria bélica, do que em
encontrar uma saída definitiva para a questão migratória.
A onda de migração mundial se intensificou, e já atinge
o Brasil.
O economista e professor José de Almeida Amaral
Júnior tem acompanhado atentamente o assunto e debatido o tema de
forma aberta e recorrente em suas concorridas aulas.
Apaixonado pelo que faz, dedica boa parte de seu tempo a formar
alunos da Uninove – Universidade Nove de Julho - e a pesquisar
o Chorinho, gênero musical que ajudou a rememorar em São
Paulo.
Simpático, exigente, trabalhador assíduo e incansável, o “Professor
Amaral”, como é chamado por seus alunos, é quase uma unanimidade entre
eles, mesmo sendo um crítico exigente e rigoroso nas aulas dos diversos cursos da universidade em que
leciona Economia e Geopolítica.
Mestre em Educação Política, graduado em Economia pela PUC/SP e em Sociologia pela Fundação
Escola de Sociologia e Política de São Paulo, também é autor dos livros Chorando
na Garoa – Memórias musicais de São Paulo e Pari - Pequeno Bairro, Grande História. Pesquisador
entusiasta por natureza, ele nos concedeu essa entrevista sobre a nova
onda de imigração mundial e os seus
reflexos no Brasil.
P: Quais são os reais motivos que estão por trás dessa nova onda de migração?
José Amaral: A
intensificação das migrações se dá por questões políticas, econômicas,
culturais e climáticas. A questão da migração é um problema sério que já vem
ocorrendo há muito tempo, não é uma novidade. Em primeiro lugar é importante
ressaltar que migração é um fenômeno humano. Nos últimos tempos, tendo em
vista os processos da globalização, acelerou suas características. No final dos
anos 80 com o fim da Guerra Fria onde se tinha dois blocos com certa
homogeneidade política, econômica e de relações internacionais, essa onda apenas
se intensificou depois que o capitalismo neoliberal, enquanto modo de produção,
venceu a luta interna entre os dois blocos e se aproveitou do fenômeno chamado
Internet. Isso tudo, juntamente com o aprofundamento das crises do petróleo,
fez com que as empresas se reorganizassem produtivamente e estimulassem a
inovação de produtos tecnológicos, de informática e de software, permitindo que
as multinacionais se mobilizassem no mundo e derrubassem os limites do Estado
Nacional. As empresas então começaram a eliminar postos de trabalho e criaram
outras fronteiras de produção que estimularam a intensificação das migrações.
P: De que forma se deu a reorganização produtiva e,
consequentemente, das migrações?
José Amaral: Vamos
pegar, por exemplo, um produto da Nike. Se fazer cadarço é mais barato na
Argentina, você faz o cadarço na Argentina. Pega o couro na Mauritânia, a cola
e o solado na Hungria, junta tudo e o produto final sai na Tailândia ou na
Indonésia. Então você tem uma produção que se “mundializa” para se tornar
concreta e descoloca as pessoas atrás do emprego. O trabalho corre atrás das
vagas e as empresas começam a levar postos de trabalho para regiões que não
tinham essas características. Como resultado de tudo isso, as migrações
aumentam.
“A indústria bélica precisa sobreviver
e a maneira mais rentável são as guerras”
P: A reordenação do trabalho e nova forma de
produção foram os únicos motivos para o aumento da migração?
José Amaral: O outro ponto são as velhas questões culturais regionalizadas.
Tribo que ataca tribo, gerando revanche e estados de guerra em que as lutas são
sucessivas e em que as pessoas vão revidar na primeira oportunidade, e em que a
indústria bélica não tem escrúpulos. A indústria bélica precisa sobreviver e a
maneira mais rentável são as guerras. A população pode não comer, mas tem bala
para atirar. Crianças andam com metralhadoras. Elas não têm educação, mas
metralhadora não falta. Cria-se um clima de insegurança e instabilidade
política que leva imediatamente a uma instabilidade econômica e essa leva as
pessoas a morrerem de fome ao longo prazo e, automaticamente, as pessoas
começam a andar, a se mobilizar e fugir dos campos de guerra. Se um país tem
problemas políticos, culturais, econômicos, as pessoas migram.
P: E isso vai passando de geração em geração?
José Amaral: Essas
guerras são todas antigas. A guerra civil é uma coisa trágica porque um vizinho
fica marcando o outro vizinho. Você é azul e porque o teu vizinho que é
vermelho te olha de um jeito que você não gostou você vai lá e mata ele. Foi o
que aconteceu com Kosovo, na Europa Central e envolveu a Sérvia e Rússia,
região da ex- Iugoslávia, mas isso já acontecia desde a Primeira Guerra
Mundial. A Síria é um país que tremeu com a Primavera Árabe. Como o governo, ao
contrário da Líbia, da Tunísia e do Egito, não caiu, criou-se oposição intensa
a ele. Essa oposição se tornou armada e o governo responde com fogo. A Síria,
um país que era extremamente organizado, está entrado em um processo de
deterioração total, em uma guerra civil em que não se tem segurança nenhuma.
Pais ficam ensinando aos filhos e aos netos que aquele grupo oprimiu eles no
passado e, na primeira oportunidade, eles acham que têm de descontar. Isso não
acaba, não tem fim. Como a região é conflituosa e não se vislumbra uma solução,
as pessoa vão embora, fogem, migram.
“A guerra civil é uma coisa trágica
porque um vizinho fica marcando o outro vizinho. Você é azul e porque o teu
vizinho que é vermelho te olha de um jeito que você não gostou você vai lá e
mata ele”
P: A tendência é as pessoas migrarem para onde?
José Amaral: A
tendência é as pessoas irem para a Europa, como se a Europa fosse a saída do
mundo. Vão para a Alemanha porque a Angela Merkel é aquela que tá dando tapa na
orelha dos gregos, então a Alemanha deve ter muita grana, daí todo mundo vai
para a Alemanha. Só que uns países são mais colaboradores, outros nem tanto.
Como são milhares de pessoas, os países começam a questionar e a cobrar uns aos
outros. Exigir que os outros também colaborem porque senão metade da Síria vai
ficar em um só país. Sem falar que também tem a questão da xenofobia. O europeu
tem mesmo um problema de desavença cultural e racial e começa a criar uma
questão racial séria. Como o nazismo e a extrema direita ainda existem por lá,
os nazistas e direitistas radicais não podem ver o sujeito que veio da África
ou do Oriente porque acham que esses povos são mesmo inferiores, roubam
empregos, etc.
P: E quais são as condições que esses imigrantes
encontram nesses países?
José Amaral: Péssimas,
porque eles vão fazer os trabalhos mais pesados. O europeu não vai botar a mão
no trabalho mais pesado. As antigas colônias migram para as antigas metrópoles
para buscar emprego e o emprego que vão ter não é de professor, mas de lavador
de pratos, de varredor de chão, de limpador de banheiros.
P: No Brasil também é assim?
José Amaral: Quando
você tem uma economia que cresce muito você pode absorver mão de obra, como
aqui no Brasil que pôde absorver o haitiano e o boliviano quando a economia
crescia e tinha mais emprego. Quando se tem um pleno emprego pode-se absorver
essas pessoas? Lógico que pode. A economia brasileira é a sétima do mundo,
talvez caia para a nona, mas absorve todo mundo e mais um pouco desse povo que
tem chegado aqui. A questão é o preconceito. Algumas pessoas reclamam porque
eles são haitianos. Porque o cara é negro. Se fosse alemão, italiano, francês
ou português ou se achassem eles bonitinhos ou se fossem do olho claro, não
tinha erro. Se o cara é negro, haitiano ou angolano, reclama-se.
P: Então o temor do brasileiro em relação aos imigrantes
não é por um possível desequilíbrio do mercado nem pelo medo do desemprego?
José Amaral: É
preconceito mesmo. O desequilíbrio de mercado é muito baixo. Os bolivianos aqui
no Brasil praticamente fazem trabalho semiescravo. O camarada vem pra cá
para trabalhar na indústria têxtil e se submete a uma coisa horrorosa na região
do Brás, Lapa e Pari. É uma exploração filha da mãe. Quem está fazendo esse
trabalho semiescravo? O brasileiro? Que nada! Quem está fazendo isso é o
boliviano, e ainda falam que o cara tá roubando vaga, apesar da delegacia do
trabalho cair em cima e ter inúmeros processos contra isso.
“Esses últimos 15 anos foram muito
importantes para o país porque se regatou, ou melhor, criou-se uma situação
nova. Você só resgata alguém quando ele já teve algo antes, essas pessoas das
camadas mais populares nunca tiveram nada”
P: Então o que é que justifica a preocupação do
brasileiro em relação aos imigrantes?
José Amaral: É
uma questão de revisão geopolítica. O Brasil hoje é uma potência econômica. Por
isso temos que tomar a iniciativa de resolver essa parada da crise econômica.
Porque o país tá perdendo tempo com coisas que vão levar a uma desgraceira da
população das camadas mais populares. O Brasil, segundo dados do Banco Mundial,
da ONU, da FAO, da OIT, que não são dados do governo federal nem de partidos
ligados ao governo, é um exemplo em política pública. Esses últimos 15 anos
foram muito importantes para o país porque se regatou, ou melhor, se criou uma
situação nova. Você só resgata alguém quando ele já teve algo antes, essas
pessoas das camadas mais populares nunca tiveram nada. O problema é que se essa
crise econômica se aprofundar ela vai colocar todos eles em risco porque os
programas sociais são assistencialistas. E são assistencialistas porque o cara
tem que comer e tem que ter os tais dois dólares por dia, se não tá ferrado até
conseguir sair da dependência do assistencialismo e criar uma situação que o
torne independente.
P: Se a crise econômica brasileira não for resolvida
o que pode acontecer?
José Amaral: Ou
se faz a economia andar para as pessoas terminarem um curso, arrumarem um
emprego decente ou se estabilizar em um emprego para que as coisas mudem para
todos ou essas pessoas vão se ferrar porque ainda não conseguiram se estruturar
enquanto família. Se a economia começa a andar para trás, aí você não vai ter
emprego para boliviano, haitiano, mas também não vai ter emprego para nós. A
taxa de desemprego já está começando a crescer e se a situação ficar mais
complicada, evidentemente que as migrações vão ser refeitas. Invés de vir para
o Brasil, o cara vai pro Chile. É assim. Hoje o Brasil é um polo de atração
porque ainda é a sétima economia do mundo. Mas se a conjuntura for desfavorável
ao longo dos anos e o país começar a perder posição, a onda migratória muda de
país. No caso da imigração atual na Europa, o cara vai para Alemanha porque ela
está bem economicamente. Se bem que ele não vai pro Japão porque é distante
geográfica e culturalmente. A Europa é mais próxima, colonizou essas caras e a
situação econômica no momento está mais estável do que suas nações. Se a
economia está funcionando, até no deserto os Tuaregs vivem.
P: Até que ponto a intensificação da onda de
imigração pode interferir na geopolítica mundial?
José Amaral: Já
está interferindo. Um exemplo são os alertas da Angela Merkel chamando a
atenção da Turquia, da Hungria e dos outros parceiros da União Europeia para
colaborarem e acolherem os imigrantes sírios. A imigração da África para a
Europa já é uma tensão geopolítica entre esses povos e entre os próprios povos
europeus, chamando um a atenção do outro.
P: E no caso da geopolítica da América Latina?
José Amaral: Para
nós da América Latina há o exemplo da experiência brasileira em relação à
Bolívia, mas não estamos criando tensões. No caso do Brasil, como a economia
estava caminhando, eu vejo mais a questão sob o ponto de vista da colaboração
geopolítica e geoeconômica. Embora a forma como os haitianos estão entrando
pelo norte do país seja desorganizada, horrorosa e desumana. Prometeram dar
sustentação para eles, mas eles chegam no norte, e como não têm onde ficar,
mandam os caras para São Paulo. É o mesmo raciocínio da Alemanha. Por que São
Paulo? Porque é o estado mais rico. No nosso caso, o tensionamento geopolítico
tem se dado porque como até então tínhamos pleno emprego. Como a crise
econômica se intensificou, alguns malucos veem o haitiano ralando e acham que
ele tá tirando o emprego dos brasileiros porque a economia começa a andar para
trás e faz com que comesse a haver esse tensionamento. Vejo que em relação ao
Brasil não há problemas geopolíticos com relação à imigração, mas problemas
policiais, de crime, como no Pari e região do Brás, pelo fato desses imigrantes
estarem sendo usados como mão de obra escrava, o que não é um problema de
relações diplomáticas e sim de questões trabalhistas. De mão de obra ilegal,
não de conflito.
“Se a economia está funcionando, até no
deserto os Tuaregs vivem”
P: Diferentemente do que acontece na Europa?
José Amaral: Sim,
porque lá na Europa há uma massa imensa de pessoas que estão desesperadas
porque os conflitos em seus países de origem não têm fim. Por causa dos grupos
radicais antigos e os que surgiram recentemente, como o Estado Islâmico. Mas
tudo culpa do Ocidente que colonizou a África de uma forma estupidamente
violenta. Arrasaram com africanos e não deram nenhuma contrapartida a eles.
Agora os africanos estão se voltando para a Europa porque ela levou uma parte
considerável da riqueza que esses povos tinham.
P: Qual a solução?
José
Amaral: Por enquanto não tem solução.
Porque o mundo está em crise. A crise econômica no mundo é uma crise séria. Não
tem uma perspectiva de melhora relativamente rápida. Um país ou outro ainda
consegue se safar, mas de modo geral a economia mundial está devagar, no
sentido de poder absorver de uma forma fácil a mão de obra que venha de outro
lugar.